Educação, arte, saúde & Cia

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Psicopedagogia Institucional

"A escola caracteriza-se, como um espaço concebido para realização do processo de ensino/aprendizagem do conhecimento historicamente construído; lugar no qual, muitas vezes, os desequilíbrios não são compreendidos" (BARBOSA).

Na escola brasileira atual, atravessamos um processo de modernização no sistema educativo, que passa por uma descentralização e por investimento das escolas como espaços de formação e humanização, superando a frustração presente; a cada momento, torna-se mais necessário  buscar novas descobertas para  minimizar e superar as dificuldades que são encontradas na educação, que vão desde os conflitos familiares/sociais - que refletem no ambiente escolar - até as novas legislações com a lei da palmada, o bulling, a inclusão, reforçando a importância da atuação do psicopedagogo na instituição de ensino.
Dessa forma, surge a proposta de um trabalho efetivo, para  desenrolar essa “teia” muitas vezes causadora da dificuldade de aprendizagem do aluno e do trabalho qualitativo do professor, que busca realização profissional e anseia transmitir conhecimento de forma significativa ao educando .
  A Atuação psicopedagógica no contexto escolar, consiste num trabalho de caráter preventivo e de assessoramento, respeitando o contexto real da escola, visando dar suporte ao professor e ao aluno, sendo um dos primeiros passos do psicopedagogo realizar um diagnóstico, buscando entender melhor sobre a rede de movimentos e a identidade dessa instituição, estabelecendo a partir daí um trabalho que amenize as dificuldades de aprendizagem, os conflitos, articulando uma postura de diálogos e contribuindo para que as mudanças possam acontecer na comunidade.
  Ter conhecimento de como o aluno constrói o seu saber, compreender as dimensões das relações com a escola, com os professores, com o conteúdo e relacioná-los aos aspectos afetivos e cognitivos, permite um fazer mais fidedigno ao psicopedagogo, considerando que o desenvolvimento do aprendente deve ocorrer de forma harmoniosa e equilibrada.
Ao chegar numa instituição escolar, muitos acreditam que o psicopedagogo  solucionará todos os problemas existentes (dificuldade de aprendizagem, evasão, indisciplina, desestímulo docente, falta de organização nos estudos, conflitos emocionais, crise de identidade, baixa auto-estima, entre outros). No entanto, o psicopedagogo não vem com as respostas prontas, é proposto um trabalho interdisciplinar em parceria com todos que fazem a escola (gestores, equipe técnica, professores, alunos, pessoal de apoio, familiares). O profissional participa da rotina escolar para observar  o "todo" da instituição e fazer a escuta necessária do que o professor traz, para indicar possibilidades de intervenções e auxílio aos conflitos que resultam em dificuldades de aprendizagem ou de ensinagem.
Segundo Piaget, aprendizagem saudável consiste em assimilar, acomodar, equilibrar-se e desequilibrar-se na hipótese apresentada pelo aluno, na interação com o professor, facilitando a descoberta e favorecendo o aprendizado para que ocorra a equilibração .Quando o estudante não está equilibrado, o psicopedagogo juntamente com professor, busca investigar as dificuldades individuais ou coletivas e uma maior harmonização no trabalho efetivo em sala de aula.
 O psicopedagogo institucional norteia seu trabalho na consciência de que para  o ser humano aprender, são necessárias condições cognitivas (abordar o conhecimento), afetivas (estabelecer vínculos), criativas (colocar em prática) e associativas (para socializar) estando presentes a ética , o sigilo e  a discrição das atitudes e vivências internas presenciadas na escola.
Entendendo a educação como processo, o psicopedagogo realizará uma observação atenta e contínua, do que estudante e educador desempenham, como se dá esse processo de aprendizagem, embasado-se  no Tripé : desenvolvimento da autonomia, criatividade, auto estima, nutrindo uma aprendizagem saudável que perpassa os aspectos desiderativo(desejo de aprender), relacional(relação com o objeto de conhecimento), cognitivo( raciocínio, pensamento, reflexão) em busca de competências e habilidades para solucionar os problemas ao longo de sua existência.
 Diante do exposto, coloco-me a disposição para detalhamento  aprofundamento e discussão sobre o trabalho, adequando-me as necessidades e limitações do colégio, convicta de que família, escola e profissionais, atuando juntos, poderão alcançar ações mais eficazes no objetivo primordial da educação:HUMANIZAR transformando o indivíduo para uma sociedade mais saudável.

 “Pensar a escola à luz da Psicopedagogia, significa analisar um processo que inclui questões metodológicas, relacionais e sócio-culturais, englobando o ponto de vista de quem ensina e de quem aprende, abrangendo a participação da família e da sociedade" ( BOSSA).

Colaboradora no livro Equilíbrio Humano e Seus Distúrbios: Do Estilo de Vida à Reabilitação


CAPÍTULO 07
Autoestima e Qualidade de Vida em Idosos com Vestibulopatias

Resumo 
Este capítulo sistematiza um conjunto de informações sobre a relação entre autoestima e qualidade de vida em idosos com doença vestibular, cujos sintomas incapacitantes mais referidos, são tonturas e vertigens, Esses sintomas poderão levá-los a apresentar desequilíbrio corporal, insegurança física, riscos de quedas e fraturas. Poderão ainda apresentar comportamentos como: irritabilidade, perda da autoconfiança, fadiga, dificuldades cognitivas, isolamento social e outros que poderão repercutir sobre sua autoestima e qualidade de vida. A autoestima corresponde à valoração intrínseca que o indivíduo faz de si em diferentes situações e eventos da vida, tomando como referência um determinado conjunto de valores, que elege como positivos ou negativos. É considerada um dos componentes da qualidade de vida na medida em que está diretamente relacionada ao bem-estar psicológico. De início, é apresentado um panorama sobre o conceito de autoestima, seguido de algumas considerações sobre a função que assume durante o processo de envelhecimento e, por fim, é apresentada a síntese de um processo de intervenção realizado com idosos vestibulopatas, em que se evidencia que o seu comportamento não difere dos idosos não considerados doentes vestibulares, segundo relatos da literatura acadêmica, mas que a sua participação em grupos sociais representados por seus pares, concorre para a elevação da autoestima.  Palavras-chave: Autoimagem. Doenças Vestibulares. Qualidade de Vida. Saúde do Idoso.

1-Introdução 
Tonturas e vertigens constituem os sintomas incapacitantes mais referidos por pacientes com distúrbios vestibulares. Embora possam ocorrer em qualquer idade, esses sintomas são muito frequentes em idosos. A ocorrência de tonturas e vertigens se revela bastante incômoda para a população idosa, uma vez que poderá levá-la a apresentar insegurança física e/ou desequilíbrio corporal, riscos de quedas e fraturas, fadiga, entre outras ocorrências1. Todos esses aspectos poderão influenciar os idosos vestibulopatas no desempenho de suas atividades diárias; dificultar os seus deslocamentos em calçadas e em escadas sem apoio, nos meios de transporte e na direção de veículos. Concomitantes às tonturas e vertigens, poderão ocorrer náuseas, vômitos e cefaleias que, por sua vez, poderão acarretar incômodos e sensações desagradáveis, contribuindo para restringir ainda mais a autonomia de idosos acometidos de doença vestibular. Os problemas físicos gerados poderão resultar em manifestações de irritabilidade, perda de autoconfiança, insegurança em andar desacompanhado, além de outros comportamentos como isolamento, ansiedade, depressão e pânico1. Ainda, poderão acarretar déficits de atenção, concentração e memória com possíveis repercussões sobre a qualidade de vida e a autoestima. Nesse sentido, o levantamento de informações sobre a qualidade de vida e autoestima de pacientes com distúrbios de origem vestibular é relevante para a realização de diagnóstico pormenorizado dos limites impostos pela doença sobre a sua condição geral de saúde, bem como para definição da programação terapêutica e verificação de sua eficácia. Esse procedimento possibilita uma visão mais ampla do paciente e se alinha ao conceito de saúde multidimensional, largamente divulgado pela Organização Mundial da Saúde - OMS, qual seja, o estado do mais completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de enfermidade. A disseminação do conceito da OMS concorreu para uma percepção maior sobre a saúde da população, posto que, além de fatores objetivos de ordem biológica, clínica e epidemiológica, o conceito integra fatores subjetivos, entre eles, o estado emocional; as interações sociais; o desempenho de atividades intelectuais e a autoproteção da saúde. Em relação à qualidade de vida, o conceito assumido pela OMS2, desde 1994, também pressupõe outros determinantes, além da saúde física. Associado ao conceito de saúde, veiculado pelo mesmo organismo internacional, a qualidade de vida é entendida como a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive, e em relação aos seus objetivos, expectativas, parâmetros e relações sociais. O conceito incorpora os domínios físico, psicológico e social, ao assumir que a qualidade de vida é influenciada de uma maneira complexa pela saúde física da pessoa, estado psicológico, nível de independência, relacionamentos sociais e, ainda, a relação com características relevantes de seu ambiente. Entre as variáveis que interferem no bem-estar psicológico e, em decorrência, na qualidade de vida, se inclui a autoestima. Ainda que se evidencie na literatura acadêmica uma multiplicidade de abordagens sobre o tema, a maioria dos estudos indica ser ela constituída do juízo de valor que tem o indivíduo sobre si mesmo e em comparação aos demais indivíduos, ou seja, como se sente e o que pensa a seu respeito e se autoavalia em relação às demais pessoas. Estudos apontam que, durante o processo de envelhecimento, a autoestima constitui um fator relevante para que o idoso se sinta confiante e positivamente reconhecido apesar do surgimento de limitações advindas desse estágio de vida. A autoestima constitui, pois, um importante indicador da saúde física e mental dos indivíduos por interferir em suas funções cognitivas, em suas relações afetivas e sociais.  Em razão da influência da autoestima sobre a saúde física e mental, inúmeros estudos e pesquisas tratam de sua manifestação em diversos tipos de pacientes, como é o caso dos portadores de diferentes doenças: oncológicas e onco-hematológicas; crônicodegenerativas; carcinomas de pele; neoplasias mamárias; úlceras crônicas; acidentes vasculares cerebrais -AVC11, entre outras. Embora a literatura disponível sobre tonturas e vertigens de origem vestibular mencione a interferência de sua influência na autoestima dos pacientes, o tema ainda carece de mais investigação, discussão e aprofundamento.  Este capítulo sistematiza um conjunto de informações sobre a relação entre a autoestima, enquanto um componente da qualidade de vida, e seus possíveis desdobramentos em idosos com desequilíbrio corporal de origem vestibular.

2-Desenvolvimento 

2.1 Autoestima
A autoestima corresponde a um sentimento de juízo, apreciação, valorização, bem-estar e satisfação que o indivíduo tem de si mesmo e que expressa por meio de atitudes que toma em relação a si mesmo. Na medida em que é constituída de sentimentos de valoração pessoal, a autoestima inclui a autoimagem e o autoconceito. A diferenciação entre os dois componentes - autoimagem e o autoconceito - é meramente conceitual, posto que ambos se confundem com a própria autoestima. A autoimagem decorre da imagem que o indivíduo tem sobre a sua aparência e o funcionamento de seu corpo. Nesse sentido, a autoimagem corresponde à percepção do indivíduo sobre si mesmo, bem como daquela que supõe ter os demais indivíduos a seu respeito. Em relação à autoimagem, Altafi e Troccoli1 lembram que a mesma situação vivida por diferentes indivíduos pode ser agradável para uns e desagradável para outros. Lembram também que essas experiências dependem da maneira como cada um deles recebe, sente e processa as diferentes situações, no desenrolar dos anos. Neri refere-se ao autoconceito como autoconhecimento, autodescrição e autodefinição devido à sua relação com o self, isto é, o sistema multifacetado de estruturas que define o indivíduo como um todo, responsável pela regulação e mediação de seus comportamentos em relação aos mundos interno e externo. O autoconceito corresponde à forma como o indivíduo pensa e se sente em relação à sua própria pessoa. Nesse sentido, está relacionado à aceitação das pessoas sobre si mesmas, à valorização que imprimem aos demais indivíduos e à projeção que fazem de suas expectativas. Nessa direção, a autoestima inclui um conjunto de valores que o indivíduo incorpora, ao longo da vida, e deles se utiliza para avaliar o seu comportamento como positivo ou negativo. Em geral, a escala de valores incorporada é compatível ao modo de sentir e pensar do indivíduo, que descarta os valores incompatíveis às suas crenças, prioridades e valores. Quando há congruência entre a situação real e a esperada, o indivíduo tende a manifestar emoções positivas, como confiança, autovalorização, capacidade e competência. Quando há incongruência entre a condição vivenciada e a expectativa individual, o indivíduo poderá apresentar atitudes de defesa, melancolia, depressão, agressividade, isolamento social, entre outras, na medida em que não identifica aspectos positivos e/ou produtivos em sil. Assim, a autoestima deriva de auto avaliações baseadas em atributos valorizados pelo indivíduo, relacionados ao grau de satisfação e/ou insatisfação do indivíduo em face das situações vividas. Estudiosos clássicos da autoestima, já destacavam o fator da valoração em sua constituição, enfatizando que os indivíduos conduzem sua vida no sentido de projetar em seus ideais, aspirações e expectativas de vida o poder maior ou menor que atribuem ao “outro”, aos grupos sociais e à sociedade em geral. A autoestima é fortalecida ou enfraquecida por mecanismos de comparação social, ou seja, o indivíduo tende a reforçar ou extinguir atitudes, segundo a autoavaliação que realiza sobre elas.

2.2 Autoestima e envelhecimento
Estudos indicam que a autoestima constitui uma questão central da saúde e do bem-estar psicológico dos idosos em razão da relação direta que estabelece com alguns aspectos que poderão influenciar sua qualidade de vida, tais como: saúde física e mental, morbidade, convívio familiar e social, entre outros. Idosos que mantêm práticas de vida saudável, como exercícios físicos, alimentação balanceada, participação em grupos sociais, entre outros fatores, costumam apresentar autoestima elevada. Estudos realizados por Reitzes e Mutran sobre a relação entre a autoestima e as mudanças em papéis parentais, laborais e sociais em grupo de idosos, ao longo de dois anos, indicam que a autoestima é preservada, quando são garantidos, entre outros aspectos, as boas condições de saúde, ocupacionais, econômicas e educacionais. Mesmo que sejam vivenciados eventos adversos ou transitórios, como exemplo, a aposentadoria, a autoestima está presente. Pesquisa realizada por An et al. com 121 mulheres coreanas, moradoras em uma comunidade, concluiu que idosas que se autoavaliam como saudáveis estão propensas a apresentar autoestima mais elevada. Estudo realizado, durante três anos, por Collins e Smyer com 1.278 idosos americanos que participaram de grupos de exercícios físicos, apontaram mudanças significativas na elevação da autoestima. Resultados semelhantes foram constatados em estudo de Meurer et al., realizado no Brasil com 150 idosos,
embora os autores considerem que outros aspectos também interfiram na autoestima, como por exemplo, a aceitação das mudanças inerentes ao processo do envelhecimento, o nível de escolaridade, entre outros. Já, quando a saúde e a funcionalidade são afetadas, dificilmente os demais papéis serão suficientes para o fortalecimento da autoestima. Em pesquisa realizada por Rabelo com adultos e idosos brasileiros que sofreram AVC, foram considerados fatores de risco para o bem estar subjetivo em que se inclui a autoestima: apresentar restrições em atividades importantes relacionadas à identidade pessoal; ter sofrido AVC em período inferior a três anos; não dispor de colaboração de outrem para realização de atividades básicas e instrumentais da vida diária; apresentar altos escores em afetos negativos e baixos escores em afetos positivos, e avaliar negativamente a própria vida, quando comparada ao período vivenciado, antes da ocorrência do AVC, ou quando comparada à vida de outros indivíduos da mesma faixa etária, não afetados pelo evento AVC. Estudos indicam que em adultos e idosos, os sentimentos referentes à baixa autoestima poderão permanecer inalterados durante um determinado período de tempo, indicando o quanto os indivíduos estão adaptados ou não à sociedade,19. Mais recentemente, os autores têm chamado a atenção para o conceito de resiliência, isto é, a capacidade dos indivíduos em resistir a acontecimentos adversos e/ou em se recuperar de seus efeitos sobre sua vida. No caso dos idosos, a autoestima elevada fortalece os níveis de resiliência na medida em que são considerados resilientes, os idosos que conseguem resolver problemas cotidianos e existenciais, assumem uma atitude proativa na família e na comunidade e apresentam condições de investir na sua própria saúde, entre outros aspectos, que lhes permitem se sentir bem e com qualidade de vida. Além desses atributos, a participação dos idosos em grupos e/ou redes sociais também influencia, de forma positiva, sua saúde e seu bem-estar psicológico e, em decorrência, sua autoestima e qualidade de vida. No processo de envelhecimento, as redes sociais constituem um aspecto importante para que os indivíduos possam se preparar para experienciar novos papéis sociais em função do período de vida do qual serão os protagonistas. Funcionam elas como um fator importante de proteção ao idoso, que concorre para o fortalecimento de sua autoestima. Em geral, as redes sociais frequentadas por idosos são integradas por um número maior de mulheres que por homens. De acordo com Neri, são comuns a troca de experiências e de vivências entre pessoas da mesma coorte; ainda, segundo a autora, as mulheres dispõem de um maior número de competências interpessoais, o que lhes permite manter um maior número de relações sociais.  Estudo clássico de Samuelsson et al.aponta dois modelos de constituição das redes sociais: Main Model e Buffering Model. Segundo o Main Model, as redes sociais constituem fontes de autoestima uma vez que promovem o estabelecimento de vínculos afetivos e os sentidos de competência, de pertencimento social, de fortalecimento da autoimagem e da autoeficácia. Quanto ao Buffering Model, os autores consideram que o apoio social configura um mecanismo de auxílio para o indivíduo lidar com situações estressantes de toda natureza. Nesse caso, o grupo social atuaria na promoção de suporte e apoio emocional, constituindo uma forma de “empoderar” o idoso para o enfrentamento de situações adversas vivenciadas pelos indivíduos. 2.3 Autoestima em idosos vestibulopatas Em estudo de intervenção realizado por Barreto com um grupo de 11 idosos com tontura de origem vestibular, a autora destacou as alterações ocorridas em relação à autoestima inicial e a manifestada, após um intervalo de dois meses, em que os idosos participaram de um grupo social constituído por seus pares. No caso específico, a participação ocorreu em oficinas de arteterapia, utilizadas como um recurso paralelo e complementar ao tratamento de reabilitação vestibular. A arteterapia constitui uma proposta terapêutica que emprega recursos oriundos das linguagens artísticas, proporcionando aos seus usuários novas descobertas e o autoconhecimento. Segundo o estudo de Barreto, a baixa autoestima inicial dos idosos se manifestou de forma associada à visão estereotipada e aos preconceitos referidos à velhice e ao processo de envelhecimento por seus familiares e outros relacionamentos, conforme destacam os fragmentos das falas a seguir: [...] a velhice atrapalha o homem. Ser velho nos limita, me sinto fragilizado pela idade, queria fazer mais coisas. Infelizmente, não dá. Isso deixa a gente ‘chateado’ [...]. [...] falam que estamos na melhor idade. Eu acho que é a pior idade [...]. [...] Me sinto triste, incapaz e sem vontade. É a idade [...].  [...] eu falo errado e alto. Esse meu jeito de ser, não agrada aos outros. Eu sei. Mas, sou assim. É um defeito, deveria mudar, coisa de velha! [...]. Ainda, de acordo com Barreto, durante o contato com seus pares, os idosos vestibulopatas puderam trocar experiências, narrar episódios e/ou histórias de vida; estabelecer vínculos afetivos e expressar sentimentos diversos, além de exercer sua criatividade nas produções realizadas. Também foram estimulados a discutir temas referentes à velhice, à chamada “terceira idade” e aos ciclos da vida; ao ato de aprender como atividade permanente de vida; bem como foram estimulados a selecionar e utilizar diferentes recursos da linguagem artística, corroborando para o desenvolvimento de sua autonomia, da capacidade de realizar escolhas e de assumir as consequências dos próprios atos com repercussões positivas sobre a autoestima, segundo expressam os fragmentos das falas destacadas: [...] Me sinto um novo ser, sempre aprendo estando com as pessoas. Só de estar aqui, conhecer vocês, foi um presente e tanto, adorei!!! Agora, posso voltar [...]. [...] O mais importante é aprendermos uns com outros. Cada um tem sua limitação, mas se estudarmos e buscarmos conhecimentos haverá um tempo em que todos nós não envelheceremos mais, quando o nosso pensamento, nossa inteligência dominar o nosso ser, ai não seremos mais limitados [...]. [...] Percebi o quanto precisamos uns dos outros [...].  [...] Aqui sim, vi as pessoas se mostrarem com suas limitações, tentando buscar o que tem de melhor em si mesmas [...]. No mesmo estudo, os participantes receberam informações sobre os distúrbios vestibulares que provocam tonturas e vertigens, além das práticas de autocuidado. De acordo com Barreto, pode-se perceber que a apropriação de informações referentes à própria doença também concorre para a afirmação positiva da autoestima, conforme indicam os fragmentos das falas em destaque: [...] Ah, agora sim, entendi... Mas, ainda não sei falar, vesti... como é mesmo? [...]. [...] O importante é aprender [...]quando temos o conhecimento da doença, fica mais fácil entendê-la [...]. [...] Minha nossa, ‘Doutora’, se a senhora não tivesse me explicado, eu nunca ia saber isso [...]. [...] Agora, sou menos ignorante [...]. O mesmo grupo expressou o quanto se sentia valorizado por ter conseguido realizar individualmente ou com os pares as atividades solicitadas. Também expressou o quanto lhes elevava a autoestima tomar consciência de capacidades pessoais, até então desconhecidas, o recebimento de uma palavra de reconhecimento, um elogio ou um cumprimento de seus pares ou da pesquisadora, conforme registram os fragmentos das falas a seguir: [...] Eu não tinha nada para fazer [...] agora eu me sinto mais útil [...] [...] Eu aprendi a ser mais feliz, a estar mais envolvida com as pessoas. Cheguei, aqui, triste, mas, agora, eu percebi que dá para eu levar a vida de outro jeito [...]. [...] Aplausos para o grupo [...] e para a professora [...], se não fosse ela e sua proposta, não estaríamos aqui [...]. Ainda, de acordo com Barreto, à medida que as oficinas foram realizadas, alterações na autoestima dos idosos vestibulopatas puderam ser percebidas em decorrência de sua capacidade de aprender novas linguagens, adquirir informações sobre a doença vestibular e o autocuidado, além da necessidade do estabelecimento de relacionamentos sociais. Os achados da autora sobre a autoestima em idosos com tontura de origem vestibular confirmam os estudos referenciados sobre autoestima em indivíduos não portadores de doentes vestibulares. Confirmam inclusive a importância da participação em grupos sociais, constituído por seus pares, estando de acordo com os estudos de Silva e Vendramini e de Brown, que destacam a função do autoconceito como condição para o indivíduo estar bem consigo e em relação ao meio social mais amplo.

3-Conclusão
O número crescente de investigações teóricas ou empíricas sobre qualidade de vida e autoestima e seus conceitos correlatos (autoimagem, autoconceito, entre outros), tal qual se manifesta na população idosa, tem o propósito de avaliar seus impactos e/ ou repercussões sobre a vida dos idosos. A multidimensionalidade atribuída a ambos os conceitos indica que o campo de investigação é rico e ainda não suficientemente explorado. Envelhecer com uma doença, como é o caso da ocorrência das vestibulopatias, em que os pacientes poderão apresentar comportamentos relacionados à baixa autoestima e níveis aquém dos desejados no que se refere à qualidade de vida, exige a adoção de estratégias de mobilização dos idosos vestibulopatas a adotar novas atitudes de vida. De um lado, o enfrentamento das alterações de ordem física, biológica e cognitiva, próprias do envelhecimento e, de outro, a superação das influências dos distúrbios vestibulares em seu bem-estar psicológico, evitando assumir atitudes de baixa autoestima que, inclusive, interferem em sua qualidade de vida. Uma das possibilidades que se vislumbra para que o idoso com doença vestibular tenha capacidade de responder aos eventos oriundos das vestibulopatias é a sua participação em grupos e/ou redes sociais que configurem uma condição efetiva para o resgate e/ou fortalecimento da autoestima e, em decorrência, para a melhoria de sua qualidade de vida.

Autoras: Thais Sisti De Vincenzo Schultheisza Jane Ribeiro Barretob Célia Aparecida Paulinob Maria Rita Aprileb*

Referências 1. Ganança MM, Caovilla HH, Ganança FF, Doná F, Branco F, Paulino CA, et al. Como diagnosticar e tratar a vertigem. Rev Bras Med 2008;65:6-14. 2. The WHOQOL Group. The World Health Organization Quality of Life Assessment (WHOQOL): position paper from the World Health Organization. Social Sci Med 1995;17(10):1403-9. 3. Rosenberg M. Self-concept and psychological well-being in adolescence. In: Leach R. The development of self. Orlando: Academic; 1985. p.205-46. 4. Cupertino APFB, Rosa FHM, Ribeiro PCC. Definição de envelhecimento saudável na perspectiva de indivíduos idosos. Psicol Refl Crít 2007;20(1):81-6. 5. Sánchez E, Barrón A. Social psychology of mental health: the social structure and personality 
79
perspective. Span J Psychol 2003;6(1):3-11. 6. Ribeiro MCP, Silva MJP. Avaliação do sentimento de auto-estima em pacientes portadores de patologias oncológicas e onco-hematológicas que utilizam as terapias complementares. Nursing 2003;6(63):20-3. 7. Vitoreli E, Pessini S, MJP. A auto-estima de idosos e as doenças crônicodegenerativas. Rev Bras Ciên Envelh Hum 2005;2(1):102-14.  8. Carvalho MP, Oliveira Filho RS, Gomes HC, Veiga DF, Juliano Y, Ferreira L M. Auto-estima em pacientes com carcinomas de pele. Rev Col Bras Cir 2007;34(6):361-6. 9. Oliveira MCM, Guimarães IA, Novo NF, Schnaider TB. Autoestima, depressão e espiritualidade em pacientes portadores de neoplasia mamária. Rev Médico Residente 2011;13(4):261-9. 10. Souza DMST, Borges FR, Juliano Y, Veiga DF, Ferreira LM.  Qualidade de vida e autoestima de pacientes com úlcera crônica. Acta Paul Enferm 2013;26(3):283-8. 11. Rabelo DF, Neri AL. Bem-estar subjetivo e senso de ajustamento psicológico em idosos que sofreram acidente vascular cerebral: uma revisão. Rev Estudos Psicologia 2006;11(2):169-77. 12. Meurer, ST, Benedetti TRB, Mazo GZ. Aspectos da autoimagem e da autoestima de idosos ativos. Motriz Rev Educ Fís 2009;15(4):788-96. 13. Altafi JG, Troccoli IR. Essa roupa é a minha cara: a contribuição do vestuário de luxo à construção da autoimagem dos homossexuais masculinos. Organ Soc 2011;18(58):513-32. 14. Neri AL. Qualidade de vida na velhice: enfoque interdisciplinar. Campinas: Alínea; 2007. 15. Schultheisz TSDV, Aprile MR. Autoestima, conceitos correlatos e avaliação. Rev Equilíbrio Corporal Saúde 2013;5(1):36-48. 16. Bednar R, Peterson S. Self-esteem: paradoxes and innovation in clinical theory and practice. Washington: American Psychological Association; 1995. 17. Vaz-Serra A. O inventário clínico de auto-conceito. Rev Psiquiatr Clín 1986;7(2):67-84. 18. Silva IA, Marinho IG. A autoestima e relações afetivas. Universitas Ciên Saúde 2003;1(2):22937. 19. Coopersmith S. The antecedents of self-esteem. Universidade de Michigan: Consulting Psychologists; 2007. 20. Mazo GZ, Cardoso FL, Aguiar, DL. Programa de hidroginástica para idosos: motivação, autoestima e autoimagem. Rev Bras Cineantropom Desempenho Hum 2006;8(2):67-72. 21. Reitzes DC, Mutran EJ. Self and health: factors that encourage self-esteemand functional health. Journals of Gerontology: Psychol Social Sci 2006;61(1):44-51. 22. An JY, An K, O’Connor L, Wexler S. Life satisfaction, self-esteem, and perceived health status among elder korean women: focus on living arrangements. J Transcult Nurs 2008;19(2):15160. 23. Collins AL, Smyer MA. The resilience of self-esteem in late adulthood. J Aging Health 2005;17(4):471-89. 24. Meurer ST, Benedetti TRB, Mazo GZ. Aspectos da autoimagem e autoestima de idosos ativos. CAPÍTULO 07
80
Equilíbrio Humano e seus Distúrbios: do Estilo de Vida à Reabilitação Motriz Rev Educ Fís 2009; 15(4):788-96.  25. Souza MTS, Ceverny CMO. Resiliência psicológica: revisão de literatura e análise da produção científica. Rev Interam Psicol 2006; 40(1):119-26. 26. Samuelsson M, Thernlund G, Ringstrom. Using the five field map to describe the social network of children: a methodological study. Int J Behav Dev 1996;19(2):327-46. 27. Barreto JR. Arteterapia: uma intervenção para a qualidade de vida e inclusão social de idosos com desequilíbrio corporal de origem vestibular. Dissertação [Mestrado em Reabilitação do Equilíbrio Corporal e Inclusão Social] - Universidade Bandeirante de São Paulo; 2012. 28. AATA. American Art Therapy Association. 1996. [acesso em 5 abr 2015]. Disponível em http://www.arttherapy.org. 29. Silva RCM, Vendramini MMC. Autoconceito e desempenho de universitários na disciplina estatística. Psicol Esc Educ 2005;9(2):261-8. 30. Brown DJ. Cultural similarities in self-esteem functioning: east is east and west is west, but sometimes the twain do meet. J Cross-Cultural Psychol 2009;40(1):140-57.
Vídeo Curso Criativa Idade 2016-1



Vídeo Curso Criativa Idade 2016-2




Videoclipe Curso Criativa Idade 2016 Turmas 1 e 2



sexta-feira, 27 de abril de 2012

Arteterapia e humanização em saúde: uma prática no tratamento de idosos com vestibulopatias

Art Therapy and humanization in health care: a clinical practice in the treatment of elderly people with vestibular disorders


Resumo
Este artigo apresenta um exercício analítico sobre o tema "Arteterapia e humanização em saúde" enquanto uma prática efetiva no tratamento de idosos com vestibulopatias. Na "Introdução", é destacado o conceito de arteterapia e suas possibilidades nos contextos terapêuticos. Em seguida, o artigo se estrutura em quatro itens. No primeiro, denominado "Trajetória da Arteterapia", é feito um breve resgate do caminho percorrido pela relação entre arte e saúde, ao longo do tempo. Na sequência, o item "Arteterapia no Brasil" sistematiza as principais experiências desenvolvidas, no país, sob responsabilidade dos médicos psiquiatras Osório César e Nise da Silveira. Na continuidade, o item "Arteterapia e Humanização em Saúde" sintetiza um conjunto de reflexões realizadas sobre as novas proposições para efetivação de práticas de humanização em saúde e os possíveis vínculos com os objetivos da arteterapia. O item final " Arteterapia no tratamento de idosos com vestibulopatias" reflete sobre as possibilidades da utilização da arteterapia como uma das práticas a ser utilizada no tratamento desses pacientes. O artigo conclui que a arteterapia somada as demais práticas clínicas, de avaliação e de reabilitação, concorre para ampliar o diagnóstico do paciente e para a adoção de medidas mais adequadas de intervenção.     
Palavras-chave:
Arteterapia - Humanização em Saúde - Saúde do Idoso - Vestibulopatias


Introdução
A expressão arteterapia vem sendo amplamente utilizada, tanto nos meios acadêmicos, quanto nos meios de comunicação. Contudo, o seu conteúdo nem sempre assume o mesmo significado, podendo, algumas vezes, gerar uma conotação diminutiva ou, até mesmo, uma visão preconceituosa. Essa situação nos leva a questionar: o que é arteterapia?

A American Art Therapy Association AATA (1993), instituição norte-americana fundada em finais da década de 1960, com a finalidade de nortear e regulamentar as atividades da arteterapia, assim a descreve:  

[...] oportunidade de exploração de problemas e de potencialidades pessoais por meio da expressão verbal e não verbal e do desenvolvimento dos recursos físicos, cognitivos e emocionais, bem como a aprendizagem de habilidades, por meio de experiências terapêuticas com linguagens artísticas variadas. Ainda que as formas visuais de expressão tenham sido básicas nas sociedades desde que existe história registrada, a Arteterapia por meio de expressões artísticas reconhece tanto os processos artísticos como as formas, os conteúdos e as associações, como reflexos de desenvolvimento, habilidades, personalidade, interesses e preocupações do paciente. O uso da arte como terapia implica que o processo criativo pode ser um meio tanto de reconciliar conflitos emocionais, como de facilitar a autopercepção e o desenvolvimento pessoal1.

Sob a perspectiva da AATA, a arteterapia utiliza diversos recursos e linguagens artísticas (música, pintura, escultura, dança, literatura etc.) como prática terapêutica. Por meio de experiências concretas, deve permitir ao sujeito participante entrar em contato com seu universo simbólico e imaginário e, a partir, desse contato, permitir-lhe elaborar e expressar o seu “acervo” interno de emoções.

Na mesma direção da AATA, Barreto e Cunha (2009, p.23) consideram arteterapia:

[...] uma prática terapêutica que se utiliza de diferentes recursos expressivos, presentes nas diversas linguagens da arte, facilitando aos participantes, um contato com seu próprio universo imaginário e simbólico, possibilitando, dessa forma, novas descobertas e o auto conhecimento2.
                                                                                                            
A utilização de diferentes recursos expressivos configura o “produto artístico” como um símbolo carregado de sentimentos, bem como  a concretização de pensamentos e imagens internas3 que podem se tornar conhecidas por meio de sua expressão.

A utilização da arteterapia se verifica em diferentes contextos terapêuticos e em diferentes áreas do conhecimento, sendo mais comum na Psicologia e na Medicina, especialmente, no campo da Psiquiatria. Trata-se, portanto, de uma prática terapêutica que comporta diferentes linhas teóricas e áreas de atuação4,5,6. A sua utilização tem possibilitado diferentes formas de acesso à saúde física e mental, ao bem estar, à reintegração e inclusão social dos pacientes e à melhoria de sua qualidade de vida.

As atividades desenvolvidas em oficinas arteterapêuticas constituem instrumentos que possibilitam a prevenção e o tratamento de doenças, a percepção de emoções, o resgate da autoestima, o estabelecimento de relações interpessoais e o amadurecimento harmônico e profundo de seus participantes7.

Nas oficinas arteterapêuticas, o pensamento criador ocorre sem discriminação de gênero, idade, escolaridade e histórico de vida. Considera-se que todo participante é capaz de criar e reinventar o novo.

É importante esclarecer que a novidade, por si só, não torna uma idéia criativa. Um ato pode ser considerado criativo sem ser totalmente novo, mas sim, porque responde adequadamente a uma nova situação, a um novo estímulo. Assim, desde que uma pessoa faz, inventa ou pensa algo que é novo para si, pode-se dizer que realizou um ato criador8. O que qualifica um ato de novo e criativo é forma como o indivíduo utiliza aquilo que inventa8.

Utilizando as várias linguagens artísticas, os pacientes poderão expressar pensamentos, emoções e sentimentos que, por vezes, influenciam negativamente em seu tratamento, recuperação e conquista de bem estar e de melhoria da qualidade de vida.  O exercício cerebral implícito à ação de criar, utilizando as várias possibilidades de linguagens, promove a melhoria das condições física, afetiva e mental do indivíduo, levando-o à obtenção da harmonia do todo3,8.


Trajetória da arteterapia

As primeiras pesquisas sobre a relação entre saúde e arte ocorreram na área da Psiquiatria. Em 1876, estudos sobre o tema foram publicados pelo médico psiquiatra Max Simon. Suas pesquisas sobre expressões artísticas de pacientes com distúrbios mentais, levaram-no a classificar um conjunto de doenças1.

Em 1888, o advogado criminalista Lombroso analisou desenhos de doentes mentais e, a partir deles, classificou traços psicopatológicos de pacientes com distúrbios psicóticos. Outros autores europeus, como Morselli, em 1894, Júlio Dantas, em 1900, e Fursac, em 1906, também realizaram pesquisas sobre produções artísticas de doentes psiquiátricos1.  

No final do século XIX e, início do século XX, Ferri, discípulo de Lombroso, Charcot e Richet, também se dedicou ao estudo da arte produzida por pacientes com doenças mentais1. Em 1906, Mohr analisou e comparou trabalhos produzidos por indivíduos considerados “normais”; por portadores de doenças psiquiátricas e por artistas, considerando nelas as manifestações de seus históricos de vida, de suas angústias e de seus conflitos pessoais1.

Mohr sugeriu a aplicação de desenhos como testes destinados a estudar diferentes aspectos da personalidade humana. Seus estudos influenciaram testes psicológicos como Murray - TAT, Szondi e Rorschach e testes motores e de inteligência, como Binet-Simon, Bender e Goodenough1.

Em 1910, Phinzhon realizou e publicou estudo comparativo entre desenhos produzidos por doentes mentais e integrantes das escolas de arte: impressionista, expressionista, surrealista e primitivista. Anos mais tarde, em 1922, o autor analisou manifestações patológicas e patologias em expressões artísticas de indivíduos considerados “normais”1.  

Entre as décadas de 1920 e 1930, a arte passou a ser cada vez mais utilizada como recurso no processo psicoterapêutico, predominando as explicações baseadas nas teorias de Freud ou Jung e se diversificando em relação às linguagens e técnicas por eles empregadas1.
           
Embora se considerasse leigo e limitado no entendimento da arte, Freud admitia sua admiração pela arte, especialmente, pelas esculturas. Sob a ótica da teoria psicanalítica, recém criada por ele, analisou as obras de alguns artistas, motivado a pesquisar a subjetividade tanto dos autores, quanto de seus apreciadores, com o propósito de entender a relação entre o efeito (a emoção) provocado pelas obras de arte sobre o sujeito1.

Mesmo nunca tendo usado a arte no processo terapêutico, os fundamentos da arteterapia já estavam definidos por Freud. Foi a partir de seus estudos, que a arte começa a ser utilizada como mediadora nos processos terapêuticos. O autor considerava a criação artística uma forma de comunicação do inconsciente que se manifestaria por meio de imagens que fugiriam do controle do superego (censura da mente), revelando-se com maior fluência e naturalidade que as palavras, além de assumirem uma função catártica e sublimadora de instintos sexuais, quando fossem liberadas1,3.

Se pela ótica psicanalítica, a arte é considerada uma linguagem simbólica, catártica e livre da censura do consciente o apreciador da obra de um artista, enquanto parte de um público, seria atingido por uma comunicação no plano da emoção1,3.

Em meados da década de 1920, Jung utiliza a linguagem artística ou expressiva em tratamentos psicoterápicos. Ao analisar diversas civilizações e culturas, o autor observou os seus símbolos culturais com o propósito de identificar os seus aspectos comuns. Acreditava que a criatividade era uma função psíquica natural e não contribuía para sublimação dos instintos sexuais, conforme pensava Freud1.
           
Nas sessões de análises, realizadas com os pacientes, Jung lhes propunha a realização de desenhos livres e espontâneos de imagens e de sonhos referentes aos seus sentimentos e conflitos. As imagens desenhadas pelos pacientes constituíam uma representação simbólica do inconsciente individual e subjetivo de cada um1,3 e, ao mesmo tempo, complementavam a linguagem verbal e possibilitavam ao paciente reorganizar seus sentimentos mais profundos e seu caos interior1,3. Assim, a atividade plástica - acompanhada pela interpretação e compreensão do trabalho emocional - se constituiria em  uma função curadora para os pacientes1,3.

Nos anos de 1940, Margareth Naumburg sistematiza a arteterapia como processo terapêutico1. Nas décadas seguintes, as linhas humanistas sistêmica e construtivista, as teorias da Psicologia, como o Psicodrama de Moreno e, a Gestalt, de Perls, tem direcionado e embasado teoricamente a arteterapia1.

Em 1973, Janie Rhyne utilizou recursos e materiais artísticos diversos para investigar sentimentos, muitas vezes obscuros, de seus pacientes1. Estabelece uma conexão entre a Psicologia e os pressupostos básicos da Gestalt - terapia para estudar as relações entre o objeto (sua forma) e a percepção do observador (seu insight), ou seja, o processo repentino em que ocorre a percepção entre a figura e o fundo em que se localiza. Ao estabelecer relações com o objeto observado, o indivíduo não se constituía em um mero receptor passivo das características de sua forma.

Rhyne considerava o aumento da percepção um traço positivo no desenvolvimento das potencialidades humanas e da autonomia na vida. Em sua metodologia de investigação, promovia o desenvolvimento de trabalhos individuais e grupais em diferentes faixas etárias e etnias. A utilização desses materiais deveria possibilitar redescobertas e invocar o desenvolvimento de potencialidades e qualidades pessoais de cada indivíduo, que passa a se conhecer a partir de seus insigths, reconhecendo seu passado e o trazendo ao presente, integrando ambos na projeção de seu futuro 1.

Ao longo do tempo, a aplicação individual e/ou coletiva da arteterapia se consolida como método terapêutico eficaz em instituições de saúde, consultórios e clínicas, bem como em terapias breves ou de longa duração destinadas ao atendimento de famílias, casais, crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos.

Arteterapia no Brasil

Vários autores utilizaram a arte aliada à terapia, no Brasil. Entre eles, os médicos psiquiatras: Osório César, de abordagem freudiana e, Nise da Silveira, junguiana.
           
Osório César (1895-1980) iniciou seus estudos sobre alienação e arte, em 1925, ainda estudante interno do Hospital Juqueri, em Franco da Rocha, no estado de São Paulo, onde por 40 anos se dedicou a pesquisar e documentar a expressão artística de pacientes mentais9. Criou a Escola Livre de Artes Plásticas, no Hospital, e publicou seu primeiro trabalho: “A Arte primitiva nos alienados”. Logo, após, publicou “Contribuições para o estudo místico dos alienados” e, mais dois casos de grafia com estereótipos gráficos de simbolismo, em 1927. Seu trabalho mais importante - “A expressão artística dos alienados” - foi publicado em 1929.

Em 1948, organizou uma primeira exposição de trabalhos artísticos de pacientes mentais, no Museu de Arte do Hospital. No ano seguinte, foi premiado pelo trabalho “Misticismo e Loucura” e, em 1950, participou do Congresso Internacional de Psiquiatria, em Paris, apresentando obras de seus pacientes, que também incluíam o seu reconhecimento e contribuição ao estudo da arte. É considerado o precursor da análise da expressão artística psicopatológica dos pacientes com doenças mentais, no Brasil, tendo sido referenciado na obra L’art psycopatologique, de Robert Volmat, em 19561.

Em 1946, a psiquiatra Nise da Silveira apresentou um trabalho inovador no Brasil, em que demonstrou como a atividade artística pode ser terapêutica. A médica pesquisou formas de compreensão do universo mental de pacientes e criou oficinas de terapia do Hospital Psiquiátrico “Dom Pedro II”, no Rio de Janeiro. Considerava a arte um instrumento de exteriorização de conteúdos inconscientes que iria colaborar no tratamento dos internos, oportunizando-lhes melhor qualidade de vida, respeito e dignidade 3, 10.

A proposta de Nise da Silveira consistia na realização de trabalhos com desenho, pintura em argila, dança, música e dramatizações para dar forma plástica e expressiva às emoções contidas no psiquismo. Buscava identificar problemas existentes entre o psiquismo e a moral social introjetada pelos indivíduos, estabelecendo analogia entre as obras desses pacientes–artistas e a mitologia, à luz da teoria junguiana3, 10.

Em 1981, a psiquiatra publicou a obra “Imagens do Inconsciente” em que descreve seu trabalho, participando ainda de um filme documentário em que explica a teoria, o método e a didática que embasavam o atendimento de seus pacientes, destacando a ética, o respeito e o cuidado com o ser humano e sua inserção nos aspectos social, cultural e econômico da sociedade1. Fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, de reconhecimento internacional e único acervo no gênero existente, no Brasil.


Arteterapia e humanização em saúde

Muitas vezes, o termo humanização em saúde é empregado como se houvesse um único e claro significado11. Trata-se na verdade de uma expressão polissêmica, posto que o seu conteúdo admite múltiplas interpretações, dando sustentação a diferentes práticas em saúde12,13.

Independente da conotação que se lhe atribua, a expressão se opõe à lógica cartesiana que admite a possibilidade do indivíduo ser dividido entre “humano” e “não-humano”, pressupondo uma nova abordagem do “humano”14.

O novo paradigma preconiza relações mais humanas no ambiente hospitalar, valorização da subjetividade do paciente, contato afetivo entre profissionais e pacientes e utilização de métodos e técnicas que permitam a ambos dar um novo significado à vida, ao adoecer e à morte, bem como priorizar o saudável em todo o contexto da hospitalização3. Trata-se, na verdade, de uma abordagem que privilegia a ética entre profissionais e pacientes a partir do estabelecimento do contato, da abertura e do acolhimento ao outro11. Uma ética ancorada no princípio da linguagem e da ação comunicativa15.

Esse contato estreito entre o profissional e os pacientes implica saber ouvir. Um ato que vai além do saber escutar. Pressupõe saber compartilhar emoções subjacentes ao que está sendo dito. Inclui a compreensão não apenas das frases, mas da entonação e velocidade das palavras; da mímica; dos gestos e do olhar16. Inclui inclusive a compreensão do não verbal e dos silêncios presentes no processo de comunicação16.

Sob essa perspectiva, a arteterapia se articula aos princípios de humanização em saúde, ao considerar que a sua proposição maior é a promoção da saúde mediante o resgate do diálogo intersubjetivo e da interlocução entre profissional e paciente, revelados por meio de expressões artísticas.

É importante destacar que esse diálogo que não se limita ao levantamento situacional, que constitui o primeiro e importante passo na relação entre profissional e paciente. Trata-se de um diálogo que não se reduz à fala ou conversação, mas em uma atitude para com o outro11. Um diálogo que exige, sobretudo, atitudes de abertura e receptividade do profissional em relação ao paciente, que deve ser considerado diferente, heterogêneo e singular 17.

A viabilização dessa proximidade entre profissional e paciente supõe a democratização das relações sociais que envolvem o atendimento, a melhoria do processo de comunicação e o reconhecimento das expectativas de ambos, ou seja, princípios essenciais às políticas e práticas relacionadas à humanização em saúde15.


Arteterapia no tratamento de idosos com vestibulopatias

Independente de seu histórico de vida, de sua situação econômica, credo, raça e cor,  os pacientes idosos com vestibulopatias são seres humanos singulares e, portanto, devem ser tratados como seres únicos, dotados de anseios, necessidades, sonhos, dores, queixas e experiências de vida diferenciadas e, não, como meros números de um prontuário.

Nesse sentido, as práticas de arteterapia, sob a égide das diretrizes da humanização em saúde, envolvem atitudes de acolhimento, respeito, envolvimento, ética e apoio social aos idosos vestibulopatas. A sua participação em oficinas de arteterapia permite aos profissionais estarem sensíveis e abertos para acolhê-los como indivíduos que possuem voz, fragilidades e vulnerabilidades manifestadas por meio dos trabalhos que desenvolvem nas oficinas.

A arteterapia constitui uma possibilidade desses pacientes entrar em contato com inúmeras técnicas corporais, linguagens plásticas e artísticas que, ao descobri-las e experimentá-las, esses pacientes poderão identificar formas criativas de conviver com a sua condição biopsíquica e social. Além disso, poderão elevar sua autoestima; melhorar suas relações interpessoais e, em decorrência, sentir-se motivado para a busca da melhoria significativa de seu bem estar e sua qualidade de vida18.

Assim, a proposta de utilização da arteterapia como um recurso para a viabilização dos princípios da humanização em saúde propicia aos idosos vestibulopatas condições de expressar o seu “acervo interno” o qual, muitas vezes, não se manifesta pela linguagem verbal. Em decorrência, permiti-lhes vivenciar novas formas de ser e de estar diante de situações com que se deparam no cotidiano, ampliando o seu autoconhecimento e as possibilidades de lidar com as limitações impostas por sua condição de paciente. Permiti-lhes ainda assumir uma atitude proativa em relação à busca de um novo padrão de saúde, de bem estar e de qualidade de vida.


Considerações Finais

Em articulação aos pressupostos da humanização em saúde, são inúmeras as possibilidades da arteterapia de viabilizar a manifestação de emoções, sentimentos e pensamentos que poderão estar influenciando na recuperação da saúde ou no tratamento dos pacientes.

Os produtos obtidos por meio do emprego de inúmeras linguagens artísticas poderá fornecer aos profissionais um conjunto de informações para a obtenção de um diagnóstico mais amplo e profundo dos pacientes. 

No caso específico de idosos vestibulopatas, as atividades desenvolvidas em oficinas arteterapêuticas lhes permitem entrar em contato com seus pares, trocar experiências, interagir durante a realização das atividades o que certamente concorre para o resgate e/ou aumento de sua autoestima, formação de vínculos sociais, além de constituir uma oportunidade efetiva para o aumento do autoconhecimento e das oportunidades de reintegração e inclusão social.

A arteterapia somada as demais práticas clínicas, de avaliação e de reabilitação concorre para ampliar o diagnóstico do paciente e para a adoção de medidas mais adequadas de intervenção.     


Abstract
This article presents an analytical exercise on the theme of “Art Therapy and humanization in health care” as an effective experience in the treatment of elderly people with vestibular disorders. In the “Introduction”, the concept of art therapy and its potentialities in therapeutic contexts are emphasized. After that, the article encompasses four items. In the first one, labeled as “The History Art Therapy”, there is a brief mapping out of the route taken by the relation between art and health as time goes by.  In the sequence, the item “Art Therapy in Brazil” systemizes the main experiences developed in the country, under the responsibility of psychiatrists Osório César and Nise da Silveira. Afterwards, the item “Art Therapy and humanization in health care” summarizes a set of reflections on new proposals to the accomplishment of practices related to humanization in health care and its possible bindings with the aims of art therapy. The final item, entitled “Art therapy in the treatment of elderly people with vestibular disorders” , ponders over the possible applications of art therapy as one of the practices to be used in the treatment of those patients. The article draws the conclusion that art therapy, added to the other clinical practices of assessment and rehabilitation, cooperate to increasing the diagnosis of patients as well as to the adoption of more appropriate intervention measures.

Key Words: Art Therapy - Humanization in Health Care – Elderly People’s Health - Vestibular Disorders


Referências
[1] Carvalho MMMJ (Org.). A Arte Cura? Recursos artísticos em psicoterapia. São Paulo: Editorial Psy II. 1995; 23-26.

[2] Barreto E, Cunha M. Criatividade não tem idade, arteterapia reinventando o envelhecimento no NATIEX. Rev IGT na Rede - Instituto de Gestalt - Terapia e Atendimento Familiar. 2009; 6(10): 21-28. Disponível em:<http://www.igt.psc.br/ojs/>. Acesso em: 15 fev 2012.
­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­
[3] Melo AJ. A terapêutica artística promovendo saúde na administração hospitalar. Rev Interdisciplinar de estudos ibéricos e ibero-americanos. 2007; 1(3):159-189.
[4] Benevides R, Passos E. Humanização na saúde: um novo modismo? Interface (Botucatu). 2004/2005; 9 (17): 389-94.
[5] Campos GWS. Humanização em saúde: um projeto em defesa da vida? Interface (Botucatu). 2005; 9(17): 398-400.
[6] Riley S. Arteterapia para famílias: abordagens integradas. São Paulo: Summus. 1998; 280p
[7] Andrade J, et al. A arte cura? São Paulo: Livro Pleno. 2004; 212p.
[8] Kneller G. Arte e ciência da criatividade. Reis J. tradutor. 14 ed. São Paulo: Ibrasa. 1978;106p.
[9] Tommasi SMB. Arte-terapia e loucura. Disponível em:<http://: www.casajungearte.com.br>. Acesso em: 15 fev 2012.

[10] Silveira N. Imagens do inconsciente. Rio de Janeiro: Alhambra. 1982.346p.
[11] Bosi MLM, Uchimura, KY. Avaliação da qualidade ou avaliação qualitativa do cuidado em saúde? Rev. Saúde Pública. 2007;41(1): 150-3.
[12] Benevides R, Passos E. Humanização na saúde: um novo modismo? Interface (Botucatu). 2004/2005; 9(17):389-94.
[13] Condrade TVL, Aprile MR, Paulino CA, Karsch UM, Bataglia PUR. Humanização da saúde na formação de profissionais da fisioterapia. Rev Equilíbrio Corporal e Saúde - RECES. 2010; 2(1): 25-35.
[14] Condrade TLV. Formação de profissionais para a área da Fisioterapia: Um estudo sobre as questões da corporeidade e alteridade. [Dissertação]. São Paulo: UNIBAN. 2006.
[15] Deslandes SF. Análise do discurso oficial sobre a humanização da assistência hospitalar. Rev Ciênc & Saúde Coletiva. 2004; 9(1):7-14.
[16] Kerber NPC, Kirchhof ALC, Cezar-Vaz MR. Vínculo e satisfação de usuários idosos com a atenção domiciliária. Rev Texto & Contexto – Enfermagem. 2008; 17(2):374-83.
[17] Nogueira-Martins MCF, Bógus, CM. Considerações sobre a metodologia qualitativa como recurso para o estudo das ações de humanização em saúde. Rev Saúde e Sociedade. 2004;13(3):44-57.
[18] Aprile MR, Bataglia PUR. Qualidade de vida de pacientes com distúrbios do equilíbrio corporal. Rev Saúde Coletiva (Barueri). 2011; 8(48):46-51.



Jane Ribeiro Barreto1
Naira Dutra Lemos 2
Maria Rita Aprile ³ 
 1 Mestranda do Programa de Mestrado Profissional em Reabilitação do Equilíbrio Corporal e Inclusão Social da Universidade Bandeirante de São Paulo - UNIBAN – Brasil.
2 Professora Mestre do Programa de Mestrado Profissional em Reabilitação do Equilíbrio Corporal e Inclusão Social da Universidade Bandeirante de São Paulo –UNIBAN - Brasil
 ³ Professora Doutora do Programa de Mestrado Profissional em Reabilitação do Equilíbrio Corporal e Inclusão Social da Universidade Bandeirante de São Paulo –UNIBAN - Brasil

Autor para correspondência:
Jane Ribeiro Barreto                  
Email: janenova@terra.com.br